Definindo Judaísmo Messiânico
Comitê de Teologia da UMJC
Verão de 2002
Comentário de Russ Resnik
DEFININDO JUDAÍSMO MESSIÂNICO
Comentário de Russ Resnik
Adendo 1. O que queremos dizer com “judeu”?
O Comitê Teológico da U.MJ.C (União das Congregações Judaico-Messiânicas) define Judaísmo Messiânico como um movimento congregacional judeu pelo Mashiach: Judaísmo Messiânico é um movimento de congregações e comunidades judias comissionado a Yeshua, o Mashiach, que segue a responsabilidade pactual da vida judaica e identidade arraigada na Torah, expressa em tradição, e aplicada no contexto do Novo Pacto.
Uma vez que o adjetivo “judeu” aparece duas vezes nesta declaração básica e está claramente no coração de nossa auto-definição, devemos definir o que queremos dizer com o termo. Tal definição talvez não alcance uma finalidade teológica, mas na prática, seria clara e útil para a mais abrangente auto-definição do Judaísmo Messiânico.
Pode ser útil começar separando duas distorções modernas do termo “judeu”.
1. Judeu como uma categoria religiosa.
Obviamente, a qualidade de ser judeu tem espantosas implicações religiosas, mas é um erro modernista ver “o ser judeu” principalmente como uma questão de identificação religiosa. Há muita confusão nos círculos judaico-messiânicos sobre esta questão. Às vezes, não-judeus adeptos começam a chamar a si mesmos de judeus porque eles cultuam num contexto judaico. Em vez disto, diríamos que o Judaísmo em toda sua extensão e diversidade é a religião do povo judeu, mas aquela adesão aos ensinos e práticas do Judaísmo não faz de alguém um judeu. E aquele que é judeu e rejeita os ensinos e práticas do Judaísmo, contudo, permanece judeu. O Judaísmo, como religião, está ligado a ser judeu, mas não é sinônimo dele.
2. Judeu como uma categoria racial.
Esta é uma outra distorção moderna, uma com um fruto ainda mais amargo do que o primeiro. As Escrituras falam de nações, tribos, povos e línguas (p.ex.: Apocalipse 7:9), isto é, sub-grupos unidos da humanidade, mas não de raça no sentido moderno biológico. O termo “sangue” não é geralmente ouvido em discussões contemporâneas: “sangue judeu corre em minhas veias”. “Ele é judeu de sangue puro”. Na verdade, tal terminologia não poderia ser usada porque as Escrituras vê toda a humanidade como um (ou um sangue; Atos 17:26 em alguns manuscritos) e manifesta em muitos povos (ethnoi em grego; goyim em hebraico). Vemos no mundo judaico contemporâneo uma grande diversidade de “raças”.
A qualidade de ser judeu, portanto, é melhor compreendida como qualidade de ser membro em um povo. Esta definição pareceria grifar a linguagem de Shaul em Filipenses 3:4-5: “Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus...”.
Michael Wyschogrod em The Body of Faith (Northvale, NJ: Jason Aronson, 1996, pp.56-57,67) denomina este “ser membro em um povo” uma “identidade de família”.
O Judaísmo não é um conjunto de crenças, não obstante este termo seja assim amplamente interpretado. Uma definição completa de Judaísmo, implica, é claro, num todo complexo de idéias, crenças, valores e obrigações atribuídas pelo Judaísmo... Mas, por mais decisivos que sejam, eles são, num sentido, mais uma super-estrutura do que um alicerce. O alicerce do Judaísmo é a identidade de família do povo judeu como descendentes de Abraão, Isaque e Jacó. Qualquer coisa que seja acrescentada a isto deve ser vista como um amadurecimento e relacionado à identidade básica do povo judeu como a semente de Abraão eleita por D-us por meio da linhagem de Abraão. Este é o ponto crucial do mistério da eleição de Israel... Elegendo a semente de Abraão, D-us criou um povo que está a Seu serviço na totalidade de sua humanidade e não somente em sua existência moral e espiritual.
Tal compreensão é particularmente útil para desenvolver uma definição prática de Judaísmo Messiânico porque o pensamento judaico já desenvolveu seus limites de membresia no povo judeu. Podemos construir nossa própria definição e atuar dentro destes limites existentes, instruídos pela nossa leitura das Escrituras.
O significado principal da qualidade de ser judeu, então, é um nascimento judeu. Tradicionalmente, aquele que é nascido de mãe judia. O Judaísmo Messiânico decidiu concordar com a Reforma Judaica, que diz que aquele que descende tanto de pai ou mãe judia, é isso que faz alguém judeu, se alguém mantiver alguma conexão com a comunidade e prática judaicas. Este tratamento, embora não seja oficialmente sancionado, parece ser quase universal em nosso meio, e está de acordo com os exemplos fornecidos pelas Escrituras. Ele revela dois outros aspectos da qualidade de ser judeu:
Primeiro, a qualidade de ser judeu é fazer parte da comunidade. Uma definição estritamente religiosa é defeituosa porque inclina-se a ver identidade principalmente em termos individuais. Nesta interpretação, um indivíduo gentio pode se tornar judeu porque decidiu seguir os costumes judaicos. Desse modo vemos as congregações auto-denominadas “Judaico-Messiânicas” sem nenhum membro judeu e nenhuma ligação real com sua comunidade judaica local. Ao contrário, eles consistem num grupo de indivíduos que decidiram adotar uma forma de Judaísmo que obtêm das Escrituras e um conhecimento superficial de fontes judaicas isoladas da comunidade judaica existente.
A qualidade de ser judeu, no entanto, sempre deve significar ligação com a comunidade judaica mais ampla e sua vida. Não se pode fazer parte do povo judeu e ao mesmo tempo negligenciar completamente os limites comunitários judaicos e auto-definições. A declaração apresenta bem este ponto: A vida judaica é vida numa comunidade concreta e histórica. Portanto, os grupos judaico-messiânicos devem fazer parte integralmente do povo judeu, compartilhando sua história e sua responsabilidade pactual como povo escolhido por D-us.
Talvez sejamos capazes de estender os limites e auto-definições com base em nossa particular leitura das Escrituras (assim como os reformados, por exemplo, os estendeu em seu envolvimento com o mundo moderno), mas não podemos negligenciá-los.
Segundo, a qualidade de ser judeu tem continuidade. Um judeu é alguém nascido pelo menos de uma mãe ou pai judeu, herdeiro de uma linha de identidade judaica por gerações, mesmo se aquela linha tenha se tornado fina em décadas recentes. Uma vez que a identidade judaica não é racial, a descoberta de ancestrais judeus não representa um judeu, a menos que haja algum tipo de identificação contínua. Alguém que descobre um ancestral judeu e se sente atraído a se identificar com o povo judeu devia ser encorajado a aprender e crescer em conhecimento e costumes. Pode vir o tempo quando teremos, dentro do Judaísmo Messiânico, um ritual de retorno à qualidade de ser judeu. Mas sem alguma forma de ritual e reconhecimento público, tal indivíduo simplesmente descreveria a si mesmo como tendo ancestral judeu e um amor pelo povo judeu, não sendo ele mesmo judeu.
Isto levanta a questão da conversão ao Judaísmo. As Escrituras claramente fornece um modelo para aqueles de fora do povo judeu se tornar parte do povo, e cria um precedente para um ritual de conversão por meio da circuncisão. Se desenvolvemos ou não, tal ritual dentro de nossos próprios círculos, devemos reconhecer sua validade no mundo judaico mais amplo. Se buscamos fazer parte do povo judeu, devemos aceitar as normas gerais de conversão prevalecentes dentro da comunidade judaica. Assim, como todas as formas de Judaísmo, vemos um convertido, seja no contexto da Reforma, Conservativo, ou Ortodoxo, como um judeu, e sua descendência normalmente como judia.
Esta norma geral para o significado da qualidade de ser judeu cobre a maior parte dos casos no mundo real. Sempre haverá exceções, e aqui novamente precisamos nos comportar como uma forma de Judaísmo. Os indivíduos com reivindicações ou questões referentes à identidade judaica precisam ser encaminhados à liderança pública de nossas congregações. A questão da identidade judaica não é o tipo de questão que alguém resolver por si mesmo. Nem em ocasiões mais difíceis, é algo que um líder individualmente pode resolver. Aqui precisamos providenciar liderança rabínica pública para conduzir os membros da família do Judaísmo Messiânico.
Adendo 2. Um modelo para a participação de gentios no Judaísmo Messiânico.
Se visionamos o Judaísmo Messiânico como um movimento judaico por Yeshua, ou até mesmo como uma forma de Judaísmo, então como entendemos a presença de muitos gentios comissionados e contribuintes em nosso meio? Proponho que Ahavat Yisrael – amor por Israel forneça o melhor modelo pela total participação no Judaísmo Messiânico.
Michael Wyschogrod escreve: “O amor infinito, eterno e absoluto do Senhor por Israel... é o tema central da Bíblia. Nada mais enfim importa. Tudo deve ser visto em sua luz. Só porque é verdadeira tudo o mais é verdadeiro. (Body of Faith, p.118).
Em contraste, alguém pode afirmar que o Mashiach, e não o amor de D-us por Israel é “o tema central da Bíblia”. No entanto, num sentido, ambas afirmações estão erradas. Tanto Ahavat Yisrael (o amor infinito do Senhor por Israel) quanto à promessa do Mashiach, devem ser entendidos dentro da história bíblica mais ampla começando na Criação. O propósito de D-us de redenção é revelado tão logo Ele chama por Adão que está escondido no jardim: Eyeka – onde está você? Vai adiante com a eleição de Abraão, Isaque e Jacó e alcança um ápice com o Êxodo do Egito e a entrega da Torah. A compreensão da redenção se expande nos profetas de Israel, e alcança o ápice mais alto com a chegada do Mashiach. A redenção final, a consumação do propósito original de D-us na criação, aguarda o retorno do Mashiach. Dentro deste contexto mais amplo, os dois temas – Ahavat Yisrael e a vinda do Mashiach – são totalmente compatíveis.
Mas, Ahavat Yisrael não fala somente do amor de D-us por Israel, pelos judeus que vivem ao nosso redor. Crentes dentre os gentios podem compartilhar neste aspecto de Ahavat Yisrael também, e este compartilhar é a chave para a frutífera participação de gentios no Judaísmo Messiânico. Ahavat Yisrael, mais do que qualquer outro exemplo descreve a chamada de gentios dentro do Judaísmo Messiânico.
Vamos refletir brevemente sobre três tipos de exemplos do envolvimento de gentios. Se compreendidos apropriadamente e praticados, cada um destes pode fornecer direção proveitosa, mas cada um está sujeito a muita distorção e não é apropriado como uma motivação principal.
1. Evangelismo de judeus.
O Judaísmo Messiânico deve dar testemunho de Yeshua como Mashiach dentro do mundo judaico mais amplo e normalmente procurará buscar influenciar outros judeus para a fé em Mashiach. Na verdade, o futuro do nosso movimento depende de atrair novos adeptos judeus. No entanto, nossas congregações não podem ser meras plataformas para evangelismo, mas devem ser expressões judaicas públicas genuínas pelo Mashiach dentro da comunidade judaica mais abrangente. Se Yeshua é o Mashiach judeu, então deve ser um meio em que seus seguidores possam testemunhar com integridade ao povo judeu, apesar de séculos de abuso e mal-entendidos. Os gentios que desejarem proclamar as boas novas do Mashiach ao povo judeu devem amar Israel, devem ser sensíveis à dor da interação com o Cristianismo, ao longo dos milênios. Na verdade, só Ahavat Yisrael, não o zêlo evangelístico, encontrará um caminho para proclamar Yeshua como Mashiach que não dilacera as almas e as famílias judias. Ver a congregação judaico-messiânica como um posto missionário distorce nosso divino chamado para construir comunidades judaicas pelo Mashiach, mas, os membros gentios motivados pelo amor ao povo judeu podem ter um papel vital na construção de tais comunidades.
2. União de judeus e gentios no Mashiach.
Definindo Judaísmo Messiânico declara que a união judaico-gentílica no Mashiach é melhor expressa socialmente como congregações judaico messiânicas edificadas em profundos relacionamentos com igrejas gentílicas. Congregações judaicas e gentílicas dentro do Corpo de Mashiach mais extenso, em sua distinção contínua e bênção mútua antecipam o shalom do mundo por vir. Procurar antecipar este shalom dentro de uma congregação judaico-gentílica local diminuirá a “distinção contínua” entre judeu e gentio que é necessária para a “bênção mútua”. Os gentios com certeza são bem-vindos dentro das congregações judaico-messiânicas e muitas vezes essenciais à tarefa de construir estas congregações, mas as congregações permanecem judaicas, não expressões de “um homem novo” que não é nem judeu nem grego. Muito de suas vidas tem base não só nas Escrituras ou em preceitos universais para todos os crentes, mas em ensinamentos e tradição judaicos. Os gentios motivados pelo Ahavat Yisrael participarão nas congregações judaico-messiânicas nestes termos.
3. Retorno a Torah.
Não é a missão do Judaísmo Messiânico chamar gentios para a Torah e raízes judaicas. Na verdade, a promoção de raízes judaicas (dependendo do que se queira dizer com esta frase) poderia diminuir o único lugar de Israel no plano de D-us. A Torah permanece um vivo e relevante documento para todos os crentes, judeus e gentios, mas muitas de suas peculiaridades são planejadas somente para Israel. Judeus messiânicos devem se apropriar da rica tradição da Torah, não necessariamente porque esta tradição é ordenada para todos os crentes, mas porque nós somos judeus. Os gentios podem ser motivados a participar nesta tradição por amor a Israel e ao D-us de Israel, mas eles devem ter cuidado para confirmar o relacionamento único de Israel para a Torah. As Escrituras descrevem Israel como um povo chamado para permanecer distinto – “eis que é povo que habita só, e não será reputado entre as nações” (Números 23:9, VRA). Muito da Torah é dado para expressar e preservar distinto destino de Israel. Um movimento de raízes judaicas que não é cuidadoso para respeitar a distinção entre judeus e gentios pode obstruir o propósito de D-us para ambos. E pode perder o ponto de focalização do Novo Pacto – a presença redentora do Mashiach nesta era por meio do Seu Espírito.
No fórum do ano passado, Jerry Feldman propôs esta questão: “Qual é a chamada de um gentio na congregação messiânica?” Ele respondeu com o que corresponde a descrição de Ahavat Yisrael:
Não estou pedindo a não-judeus a se tornarem judeus. Pelo contrário, considero nossas crianças judias crescendo com uma identidade judaica nos propósitos de D-us como o remanescente de Israel. Qualquer coisa que diminuísse a fidelidade de D-us, a qual salvou Israel, que é o emblema desta fidelidade, teria conseqüências sérias. Obviamente os gentios não deveriam ser, fazer ou esperar qualquer coisa que diminua nossa responsabilidade como judeus. Os comentários às vezes sugerem que “somos judeus demais”, ou que “deveríamos cultuar mais no Espírito” (enraizados numa expectativa cultivada mais pela igreja local do que pelas fontes bíblicas judaicas)... Ruth nunca teve estas críticas e exigências quando ela disse: “Seu D-us será o meu D-us; o seu povo será o meu povo”.
Este amor sacrificial por Israel está arraigado no próprio amor de D-us por Israel, descrito na bênção que precede o Shema matinal: Com amor abundante tem nos amado, SENHOR, nosso D-us; com mui grande misericórdia tem compadecido de nós... Tem nos escolhido dentre cada povo e língua. E tem nos trazido para perto do Teu grandioso Nome sempre na verdade, para oferecermos ações de graças a Ti, e proclamar Tua unidade com amor. Louvado seja, SENHOR, Que escolhe Teu povo Israel com amor (do Sidur Artscroll).
Ahavat Yisrael como motivação principal não diminui a participação gentílica no Judaísmo Messiânico, mas o eleva, pois é a participação no próprio amor de D-us pelo Seu povo. Este amor nos atrai a todos – judeus e gentios igualmente – no serviço mútuo encarnado pelo próprio Mashiach. Os gentios no Judaísmo Messiânico não estão aqui por eles mesmos, mas pelo próprio povo do Mashiach, que tem sido ferido em Seu nome por outros gentios. E os judeus no Judaísmo Messiânico também não estão aqui por eles mesmos, mas devem aceitar a rejeição e incompreensão que o Mashiach suportou no meio do Seu próprio povo. Juntos, judeus e gentios no Judaísmo Messiânico têm o raro privilégio de incorporar a vida sacrificial do Mashiach que proclamamos.


